Nasce uma sambista – por Fátima Lacerda

28 01 2011

Nasce uma sambista. E tudo começou no Candongueiro. Primo Luisinho Nascimento produziu o CD com o carinho de um tio. Mas ficava encucado e não parava de perguntar: “Afinal, de onde vem a veia de sambista dessa loirinha de Icaraí, com cara de patricinha?” Confesso que eu também não atinava e na tentativa de encontrar a resposta, entre orgulhosa e exageradamente coruja, respondia: “Baixou Cartola!”
 Até que os primos Luisinho e Maria me chamaram para uma feijoada no Candongueiro, no domingo (21). Então, a ficha caiu: “Foi aqui, primo, tá explicado!” – Fazia uns dez anos que eu não voltava àquela casa de samba. Mas me lembro quando tudo começou. Éramos todos uns idealistas. Ainda estávamos na década de 1980. Éramos uma meia dúzia de doidos construindo o PT – alguns, admito, mais simpáticos ao PDT de Leonel Brizola – e a Ilda e o Hilton sonhando em construir uma casa de samba de raiz, com a cara dos velhos quintais, como na origem do chorinho, uma casa que reunisse e valorizasse os bambas. E trouxesse para o centro das atenções o melhor da música brasileira. Sem fazer concessões.
 Nós, também, que naquele momento apostávamos nossos sonhos no caminho da política, partilhávamos e torcíamos para que Ilda e Hilton conseguissem fazer do Candongueiro uma referência. O nosso saudoso João Batista Petersen, meu ex-marido Miguel, compadre Omar Serrano, Stelinha, Cristina, Ralderes – era uma turma que saía da Praia Itaipu, programa religioso dos sábados e domingos (quando não tinha panfletagem ou reunião) e marcava o ponto no Candongueiro.
 No início, foi difícil. Lembro que a frequência era pequena. Os amigos iam em parte para dar uma força, em parte porque era muito bom. A dupla Ilda e Hilton primava pela qualidade da música, dos quitutes, da cachaça. E não tardou para que a nata do samba também descobrisse isso. A nossa presença, a dos amigos que torciam para dar certo, foi se perdendo na multidão dos frequentadores que vinham de longe, do Rio e até de outros estados, para conhecer aquele templo do samba de raiz.
 Naquela época, lá no comecinho, quando tivemos o privilégio de ver nascer o Candongueiro, Maíra Santafé era menina. E frequentava a casa de samba compulsoriamente, porque os mais velhos não abriam mão desse prazer e carregavam a filharada. Eu tinha quatro. Mas a sensibilidade musical da Maíra, o ouvido, a voz melodiosa e afinada, desde cedo se destacavam.
 Com o padrasto, Maíra aprendeu a sambar do jeito dos “malandrinhos”, passinho miúdo, e no estilo das mulatas. Lá Maíra cresceu, carregada pela mãe, pelo padrasto, pelos amigos, ouvindo o que existe de melhor do samba: Cartola, Dona Ivone Lara, Nélson Sargento, Zé Ketti, Ismael Silva, Candeia, Wilson Moreira, Noel Rosa, Pixinguinha, Beth Carvalho, João Nogueira, Clementina de Jesus, Martinho da Vila, Silas de Oliveira, Noca da Portela, Luis Carlos da Vila, Walter Alfaiate, Paulo da Portela, Monarco…
 É bem verdade que tinha uma raiz, lá em Campos, onde foi gerada, do vovô Lord Broa, apaixonado por carnaval, presidente eterno do bloco “Os Caveiras”, do Automóvel Clube e incansável promotor dos carnavais de rua, desde os velhos corsos às batalhas de confete. Uma herança genética que o papai Martinho Santafé também recebeu e repassou.
 Foi sambando devagarinho, ouvindo samba religiosamente com o vovô Paulo, dono de uma invejável coleção de vinil, que vai de Noel Rosa e Francisco Alves a Clara Nunes e Elizete Cardoso, foi assim que, há uns cinco anos, Maíra começou a compor. Na maioria das vezes vinham letra e música na cabeça. Estaria ela, como uma anteninha, captando mensagens lá do paraíso?
 Confesso que sempre senti a presença forte dos Orixás no Candongueiro. Pedia licença e proteção quando chegava lá, antes de me entregar aos deuses da folia. E nem sou de seguir religiões. Como boa brasileira, tenho fé e respeito todos os mistérios. Penso que a nossa abençoada origem africana se perpetua por caminhos que nós, pobres mortais, não somos capazes de entender. Senão, como explicar presentes como esses? Essa geração de jovens, em que a pele pode ser branca, não importa, mas o coração e alma são lindamente negros. Só pode ser um ardil tecido pelos Orixás. Muito provavelmente, quando se divertiam no templo do samba.

Fatima Lacerda
Niterói, novembro de 2010
 A  compositora  Maíra Santafé acaba de lançar seu primeiro CD autoral, entitulado “Raiz de Samba”, com 10 composições próprias e produção musical de Luisinho Nascimento.

Contato direto com a compositora:
mairasantafe@hotmail.com
www.myspace.com/mairasantafe

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